A Carta de Paix Liturgique - À CONVERSA COM MONS. SAMPLE

 

O congresso internacional «Sacra Liturgia 2013», que teve lugar de 25 a 28 de Junho, em Roma, deu a oportunidade a dois cardeais e a três bispos de poderem contribuir para o debate sobre a liturgia e sobre a reforma litúrgica, juntamente com sacerdotes, religiosos e leigos. Um deles era Mons. Alexander Sample, antigo bispo de Marquette, no Michigan, e agora bispo de Portland, no Oregon. Além de vir participar na conferência pensada pelo bispo de Toulon, Mons. Rey, a verdade é que Mons. Sample viajou até Roma para receber o pálio das mãos do Papa Francisco, no dia da solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo. A sua ampla experiência de pastor permitiu-lhe fazer uma intervenção esclarecedora e muito apreciada sobre: “O bispo: regente, promotor e guardião da vida litúrgica da diocese”.


I – RESUMO DA INTERVENÇÃO DE MONS. SAMPLE NO CONGRESSO “SACRA LITURGIA”


O objectivo da conferência de Mons. Sample era o de proporcionar uma reflexão sobre a conduta de um bispo na própria diocese à face dos textos do Concílio Vaticano II que definem o seu papel e, em particular, a consideração das três funções que lhe são próprias: "munus docendi, munus liturgicum, munus regendi" (a função de ensinar, o culto divino e o governo pastoral).

Nos documentos conciliares, o bispo é chamado de “sumo sacerdote” e “sumo pastor das ovelhas” que lhe estão confiadas. Mesmo se a sua função relativa à liturgia não é alvo de tratamento explícito, de maneira implícita sublinha-se o quanto a liturgia do bispo é, e deve ser, exemplar, de modo especial, a que ele celebra na sua Catedral. Uma tal liturgia deverá ser exemplar para os sacerdotes e para os fiéis da diocese, e essa prática há-de ser depois imitada nas paróquias, na fidelidade às normas litúrgicas e com a consciência da beleza que deve acompanhar a adoração divina.

Mons. Sample citou então o n. 26 de Lumen Gentium a fim de ilustrar que é ao bispo que “foi confiado o encargo de apresentar à Majestade divina o culto e a religião cristã, de a regular segundo os preceitos do Senhor e as leis da Igreja, às quais lhe caberá juntar, no âmbito da sua diocese e segundo o seu juízo particular, determinações ulteriores”. O decreto Christus Dominus, relativo à missão pastoral dos bispos no seio da Igreja recorda que “Cristo deu aos Apóstolos e aos seus sucessores o mandato e o poder de ensinar todas as gentes, de santificar os homens na verdade e de guiar o rebanho”.

O cânone 392 do Código de Direito Canónico também afirma de modo igualmente claro que o bispo, por isso que deve “preservar a unidade da Igreja universal”, é chamado a vigiar para que “não se introduzam abusos na disciplina eclesiástica, particularmente no concernente ao ministério da palavra, à celebração dos sacramentos e sacramentais, ao culto de Deus e dos Santos, e ainda à administração dos bens”. Além disso, é também uma sua responsabilidade velar para que os sacerdotes, diáconos e leigos possam penetrar cada vez mais profundamente no significado dos ritos e textos litúrgicos. A dignidade e a beleza dos santuários, assim como a música e a arte sacra, deverão também ajudá-lo na prossecução deste objectivo.

Mons. Sample estima que uma das funções mais importantes dos bispos é aquela que vem delineada em Apostolorum Successores, o directório para o ministério pastoral dos bispos (§142): “O Bispo deve considerar como seu ofício próprio antes de mais o de ser o responsável pelo culto divino e, em vista desta função, exercerá as outras tarefas de mestre e de pastor. De facto, a função santificadora, embora estreitamente unida pela sua própria natureza aos ministérios de magistério e de governo, distingue-se enquanto especificamente exercida na pessoa de Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, e constitui o ponto culminante e a fonte da vida cristã.” O bispo age in persona Christi capitis, e assim em particular na liturgia.

Depois desta convincente exposição sobre a missão e a responsabilidade episcopais em matéria de liturgia, o arcebispo recorreu à sua experiência de pastor da diocese de Marquette (Michigan, Estados Unidos) para ilustrar como se pode passar à prática.

De acordo com o que prevêem textos do Concílio, o bispo deverá santificar a sua diocese (munus liturgicum ou sanctificandi), nomeadamente através da liturgia, e fá-lo-á dando-lhe uma certa orientação. A sua liturgia deverá ensinar com o exemplo. Demasiados abusos litúrgicos são justificados dizendo: “Vimos isso na Catedral! As liturgias terra-a-terra, infelizmente, são muito mais frequentes do que gostaríamos de admitir. Em Portland, hoje, como em Marquette, ontem, o que Mons. Sample deseja é tão simplesmente que os fiéis e os sacerdotes sigam o exemplo que ele dá e possam proclamar, enchendo-o de alegria: “É assim que faz o bispo.”

O segundo aspecto do ministério do bispo é o seu dever de ensinar (munus docendi). Aliás, ele próprio vê-se a si mesmo como o guia da renovação litúrgica na sua diocese, já que, segundo nos diz, é preciso explicar de novo aos sacerdotes e aos leigos as normas litúrgicas: “Estou cada vez mais convencido de que, hoje em dia, uma grande parte dos problemas relativos à celebração da liturgia, e sobretudo no que diz respeito à Santa Missa, vem da ausência profunda e generalizada de uma compreensão da natureza e do significado interior da própria liturgia.” Para dar remédio a isso, o bispo deverá utilizar todos os meios que estejam à sua disposição, seja pelo conselho seja através de publicações diocesanas e, nomeadamente, usando o site internet da diocese. É evidente que não se pode esperar uma mudança da noite para o dia. Deve-se contar com anos, senão mesmo decénios, de uma boa catequese.

Por fim, o bispo exerce também o munus regendi, a direcção do rebanho. Para lutar contra os abusos, deve ele próprio evitar infringir as leis litúrgicas. Cumpre-lhe a responsabilidade de se certificar, com paciência e compreensão, que as normas litúrgicas estão a ser respeitadas pelos seus sacerdotes. “Estou convencido de que aquilo que poderíamos chamar de ‘boa liturgia’ começa pela fidelidade inabalável às normas litúrgicas estabelecidas pela autoridade competente”, asseverou. Para garantir esta fidelidade, deve-se corrigir os abusos litúrgicos, e se necessário, uma e outra vez. Frequentemente, não se trata de uma desobediência voluntária por parte dos sacerdotes ou dos fiéis, mas de uma má compreensão. Mons. Sample advoga ainda à publicação por parte dos bispos preocupados com a liturgia, de uma carta pastoral sobre o tema, reforçada por um apelo a uma melhor catequese litúrgica e à elaboração de directivas práticas (por exemplo, quanto à música nas igrejas).

O último ponto que Mons. Sample quis sublinhar, e que não constava do texto fornecido previamente aos tradutores, foi o facto de ver na forma extraordinária uma contramedida eficaz em face das más práticas litúrgicas. Segundo ele, a “reforma da reforma” desejada por Bento XVI passa por um maior conhecimento e por conseguinte, uma mais ampla difusão, da antiga forma do rito romano. Se a forma ordinária é chamada a reorientar-se com base nos documentos conciliares, ela precisará de uma bússola e de um modelo. Ora, segundo o arcebispo de Portland, este modelo é a liturgia tradicional. Na opinião dele, os bispos que querem contribuir para a renovação da Igreja deverão familiarizar-se com a forma extraordinária do rito romano.

Em Marquette, Mons. Sample tinha permitido a forma extraordinária, e ao fazê-lo deu resposta às aspirações das suas ovelhas. Acima de tudo, como pastor, e antes mesmo de fixar os lugares de culto para a forma extraordinária, reivindicou o direito de a celebrar ele mesmo na sua Catedral.


Mons. Sample em Roma, no congresso "Sacra Liturgia"


II – ENCONTRO EXCLUSIVO COM MONS. SAMPLE

Por ocasião da sua vinda a Roma para o congresso, Mons. Sample teve a gentileza de nos conceder alguns minutos para uma breve entrevista.


1) Quando se olha para o catolicismo americano a partir da Europa, fica-se com a sensação de que a questão litúrgica não assume aí um aspecto ideológico. É assim?

Mons. Sample
: Eu não vivo aqui, na Europa, mas a julgar pelas informações que consegui recolher junto dos participantes do congresso, de facto, fico com a impressão de que há uma maior abertura à forma extraordinária do rito romano nos Estados Unidos. Pode ser que muitos não a queiram ou não tenham gosto por ela, mas não fazem disso um “casus belli” (“caso de guerra”, n.d.r.) e aceitam-na, mesmo que não fiquem contentes. Tenho a impressão de que as pessoas que aqui pude encontrar deparam com mais dificuldades nas suas próprias dioceses para conseguirem a forma extraordinária.


2) Crê que o Motu Proprio Summorum Pontificum foi aplicado na sua anterior diocese (Marquette) da maneira que Bento XVI o desejava?

Mons. Sample
: Diria que sim. Quando pediram a sua aplicação, o bispo (que era eu) tratou de que as pessoas fossem atendidas. Nessa diocese rural, chegámos a ter três paróquias que introduziram a forma extraordinária na sua liturgia. E isso veio de um autêntica procura por parte da população. No momento da publicação do Motu Proprio, o Santo Padre convidou os bispos a serem mais generosos com os fiéis. Foi o que tentei fazer no meu cargo anterior. Hoje, em Portland, onde cheguei apenas no início do ano, ainda tenho de tentar saber qual é a procura dos fieis.


3) Na opinião de V. Ex.a, como é que se pode alcançar a paz litúrgica?

Mons. Sample
: Ora aí está a questão! De facto, fica-se muitas vezes com a impressão de que a liturgia é um campo de batalhas, não acha? Se penso no que vivi, indo mesmo até aos meus anos de seminário, a experiência de quase toda a minha vida sacerdotal é a de que aquilo que mais nos devia unir é precisamente o que mais nos divide. É realmente muito triste! Creio que esse facto é um grande peso no coração de Nosso Senhor, para empregar um termo antropológico, isto é, o facto de ver que o dom de Si próprio, que nos deixou na Eucaristia, se tornou em motivo de divisão entre os seus discípulos, mesmo no seio da Igreja Católica.

A paz litúrgica está em se aceitar tudo o que a Igreja nos deu, em todas as suas formas. Mesmo em se tratando da forma extraordinária, devemos aceitá-lo. Como nos explica o Santo Padre no Motu Proprio e na Instrução Universae Ecclesiae, a forma ordinária continua a ser ordinária. Quando formos capazes de receber tudo o que a Igreja nos oferece e de o aceitar tal e qual, então sim, poderemos aproximar-nos da paz litúrgica. Já se ficarmos demasiado apegados às nossas preferências e aos nossos gostos, nesse caso estaremos a abandonar a recta via
 

 
 
Fonte: Paix Liturgique 


Texto inédito do Papa Bento XVI publicado por ocasião do 50° aniversário do início do Concílio Vaticano II


Foi um dia maravilhoso aquele 11 de Outubro de 1962 quando, com a entrada solene de mais de dois mil Padres conciliares na Basílica de São Pedro em Roma, se abriu o Concílio Vaticano II. Em1931, Pio XI colocara no dia 11 de Outubro a festa da Maternidade Divina de Maria, em recordação do facto que mil e quinhentos anos antes, em 431, o Concílio de Éfeso tinha solenemente reconhecido a Maria esse título, para expressar assim a união indissolúvel de Deus e do homem em Cristo. O Papa João XXIII fixara o início do Concílio para tal dia com o fim de confiar a grande assembleia eclesial, por ele convocada, à bondade materna de Maria e ancorar firmemente o trabalho do Concílio no mistério de Jesus Cristo. Foi impressionante ver entrar os bispos provenientes de todo o mundo, de todos os povos e raças: uma imagem da Igreja de Jesus Cristo que abraça todo o mundo, na qual os povos da terra se sentem unidos na sua paz.

Foi um momento de expectativa extraordinária pelas grandes coisas que deviam acontecer. Os concílios anteriores tinham sido quase sempre convocados para uma questão concreta à qual deviam responder; desta vez, não havia um problema particular a resolver. Mas, por isso mesmo, pairava no ar um sentido de expectativa geral: o cristianismo, que construíra e plasmara o mundo ocidental, parecia perder cada vez mais a sua força eficaz. Mostrava-se cansado e parecia que o futuro fosse determinado por outros poderes espirituais. Esta percepção do cristianismo ter perdido o presente e da tarefa que daí derivava estava bem resumida pela palavra «actualização»: o cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro. Para que pudesse voltar a ser uma força que modela o porvir, João XXIII convocara o Concílio sem lhe indicar problemas concretos ou programas. Foi esta a grandeza e ao mesmo tempo a dificuldade da tarefa que se apresentava à assembleia eclesial.

Obviamente, cada um dos episcopados aproximou-se do grande acontecimento com ideias diferentes. Alguns chegaram com uma atitude mais de expectativa em relação ao programa que devia ser desenvolvido. Foi o episcopado do centro da Europa – Bélgica, França e Alemanha – que se mostrou mais decidido nas ideias. Embora a ênfase no pormenor se desse sem dúvida a aspectos diversos, contudo havia algumas prioridades comuns. Um tema fundamental era a eclesiologia, que devia ser aprofundada sob os pontos de vista da história da salvação, trinitário e sacramental; a isto vinha juntar-se a exigência de completar a doutrina do primado do Concílio Vaticano I através duma valorização do ministério episcopal. Um tema importante para os episcopados do centro da Europa era a renovação litúrgica, que Pio XII já tinha começado a realizar. Outro ponto central posto em realce, especialmente pelo episcopado alemão, era o ecumenismo: o facto de terem suportado juntos a perseguição da parte do nazismo aproximara muito os cristãos protestantes e católicos; agora isto devia ser compreendido e levado por diante a nível de toda a Igreja. A isto acrescentava-se o ciclo temático Revelação-Escritura-Tradição-Magistério. Entre os franceses, foi sobressaindo cada vez mais o tema da relação entre a Igreja e o mundo moderno, isto é, o trabalho sobre o chamado «Esquema XIII», do qual nasceu depois a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Atingia-se aqui o ponto da verdadeira expectativa suscitada pelo Concílio. 

A Igreja, que ainda na época barroca tinha em sentido lato plasmado o mundo, a partir do século XIX entrou de modo cada vez mais evidente numa relação negativa com a era moderna então plenamente iniciada. As coisas deviam continuar assim? Não podia a Igreja cumprir um passo positivo nos tempos novos? Por detrás da vaga expressão «mundo de hoje», encontra-se a questão da relação com a era moderna; para a esclarecer, teria sido necessário definir melhor o que era essencial e constitutivo da era moderna. Isto não foi conseguido no «Esquema XIII». Embora a Constituição pastoral exprima muitas elementos importantes para a compreensão do «mundo» e dê contribuições relevantes sobre a questão da ética cristã, no referido ponto não conseguiu oferecer um esclarecimento substancial.


Inesperadamente, o encontro com os grandes temas da era moderna não se dá na grande Constituição pastoral, mas em dois documentos menores, cuja importância só pouco a pouco se foi manifestando com a recepção do Concílio. Trata-se antes de tudo da Declaração sobre a liberdade religiosa, pedida e preparada com grande solicitude sobretudo pelo episcopado americano. A doutrina da tolerância, tal como fora pormenorizadamente elaborada por Pio XII, já não se mostrava suficiente face à evolução do pensamento filosófico e do modo se concebia como o Estado moderno. Tratava-se da liberdade de escolher e praticar a religião e também da liberdade de mudar de religião, enquanto direitos fundamentais na liberdade do homem. Pelas suas razões mais íntimas, tal concepção não podia ser alheia à fé cristã, que entrara no mundo com a pretensão de que o Estado não poderia decidir acerca da verdade nem exigir qualquer tipo de culto. A fé cristã reivindicava a liberdade para a convicção religiosa e a sua prática no culto, sem com isto violar o direito do Estado no seu próprio ordenamento: os cristãos rezavam pelo imperador, mas não o adoravam. Sob este ponto de vista, pode-se afirmar que o cristianismo, com o seu nascimento, trouxe ao mundo o princípio da liberdade de religião. 

Todavia a interpretação deste direito à liberdade no contexto do pensamento moderno ainda era difícil, porque podia parecer que a versão moderna da liberdade de religião pressupusesse a inacessibilidade da verdade ao homem e, consequentemente, deslocasse a religião do seu fundamento para a esfera do subjectivo. Certamente foi providencial que, treze anos depois da conclusão do Concílio, tivesse chegado o Papa João Paulo II de um país onde a liberdade de religião era contestada pelo marxismo, ou seja, a partir duma forma particular de filosofia estatal moderna. O Papa vinha quase duma situação que se parecia com a da Igreja antiga, de modo que se tornou de novo visível o íntimo ordenamento da fé ao tema da liberdade, sobretudo a liberdade de religião e de culto.

O segundo documento, que se havia de revelar depois importante para o encontro da Igreja com a era moderna, nasceu quase por acaso e cresceu com sucessivos estratos. Refiro-me à declaração Nostra aetate, sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs. Inicialmente havia a intenção de preparar uma declaração sobre as relações entre a Igreja e o judaísmo – um texto que se tornou intrinsecamente necessário depois dos horrores do Holocausto (shoah). Os Padres conciliares dos países árabes não se opuseram a tal texto, mas explicaram que se se queria falar do judaísmo, então era preciso dedicar também algumas palavras ao islamismo. Quanta razão tivessem a este respeito, só pouco a pouco o fomos compreendendo no ocidente. Por fim cresceu a intuição de que era justo falar também doutras duas grandes religiões – o hinduísmo e o budismo – bem como do tema da religião em geral. A isto se juntou depois espontaneamente uma breve instrução relativa ao diálogo e à colaboração com as religiões, cujos valores espirituais, morais e socioculturais deviam ser reconhecidos, conservados e promovidos (cf. n. 2). Assim, num documento específico e extraordinariamente denso, inaugurou-se um tema cuja importância na época ainda não era previsível. Vão-se tornando cada vez mais evidentes tanto a tarefa que o mesmo implica como a fadiga ainda necessária para tudo distinguir, esclarecer e compreender. No processo de recepção activa, foi pouco a pouco surgindo também uma debilidade deste texto em si extraordinário: só fala da religião na sua feição positiva e ignora as formas doentias e falsificadas de religião, que têm, do ponto de vista histórico e teológico um vasto alcance; por isso, desde o início, a fé cristã foi muito crítica em relação à religião, tanto no próprio seio como no mundo exterior.

Se, ao início do Concílio, tinham prevalecido os episcopados do centro da Europa com os seus teólogos, nas sucessivas fases conciliares o leque do trabalho e da responsabilidade comuns foi-se alargando cada vez mais. Os bispos reconheciam-se aprendizes na escola do Espírito Santo e na escola da colaboração recíproca, mas foi precisamente assim que se reconheceram servos da Palavra de Deus que vivem e trabalham na fé. Os Padres conciliares não podiam nem queriam criar uma Igreja nova, diversa. Não tinham o mandato nem o encargo para o fazer: eram Padres do Concílio com uma voz e um direito de decisão só enquanto bispos, quer dizer em virtude do sacramento e na Igreja sacramental. Então não podiam nem queriam criar uma fé diversa ou uma Igreja nova, mas compreendê-las a ambas de modo mais profundo e, consequentemente, «renová-las» de verdade. Por isso, uma hermenêutica da ruptura é absurda, contrária ao espírito e à vontade dos Padres conciliares.

No cardeal Frings, tive um «pai» que viveu de modo exemplar este espírito do Concílio. Era um homem de significativa abertura e grandeza, mas sabia também que só a fé guia para se fazer ao largo, para aquele horizonte amplo que resta impedido ao espírito positivista. É esta fé que queria servir com o mandato recebido através do sacramento da ordenação episcopal. Não posso deixar de lhe estar sempre grato por me ter trazido – a mim, o professor mais jovem da Faculdade teológica católica da universidade de Bonn – como seu consultor na grande assembleia da Igreja, permitindo que eu estivesse presente nesta escola e percorresse do interior o caminho do Concílio. Este livro reúne os diversos escritos, com os quais pedi a palavra naquela escola; trata-se de pedidos de palavra totalmente fragmentários, dos quais transparece o próprio processo de aprendizagem que o Concílio e a sua recepção significaram e ainda significam para mim. Em todo o caso espero que estes vários contributos, com todos os seus limites, possam no seu conjunto ajudar a compreender melhor o Concílio e a traduzi-lo numa justa vida eclesial. Agradeço sentidamente ao arcebispo Gerhard Ludwig Müller e aos colaboradores do Institut Papst Benedikt XVI pelo extraordinário compromisso que assumiram para realizar este livro.

Castel Gandolfo, na memória do bispo Santo Eusébio de Vercelas, 2 de Agosto de 2012. 
BENTO XVI

O Papa aos bispos da França: leigos devem animar realidades temporais; diferença entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial.

Do Fratres

     No momento em que o Cardeal Schönborn, arcebispo de Viena, anuncia uma reforma diocesana pela qual leigos comandarão paróquias, o Santo Padre declara aos bispos franceses: leigos devem animar realidades temporais; preste-se atenção à diferença essencial entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ordenado.

     Castel Gandolfo (Agência Fides | 22-09-2012) – “A França possui uma longa tradição espiritual e missionária… Os desafios de uma sociedade largamente secularizada convidam agora a buscar com coragem e otimismo uma resposta, propondo com audácia e inventiva a novidade permanente do Evangelho”. São as palavras com as quais o Santo Padre Bento XVI se dirigiu ontem, 21 de setembro, ao primeiro grupo de Bispos da França que veio a Roma para a visita Ad Limina Apostolorum. No seu discurso, o Papa destacou os traços essenciais da figura do Bispo, cujo ministério se inspira na imagem do Bom Pastor, “que conhece as suas ovelhas, vai em busca daquela que se perdeu, e as ama até dar a própria vida por elas”. “O Bispo diocesano – destacou o Pontífice – é chamado a manifestar uma solicitude especial pelos seus sacerdotes e, em especial, por aqueles que receberam a ordenação recentemente e pelos que têm necessidade ou são idosos… Nos nossos dias, sem dúvida, os operários do Evangelho são poucos. Portanto, é urgente pedir ao Pai que envie operários para sua messe. É preciso rezar e fazer rezar nesse sentido e os encorajo a prosseguir com mais atenção a formação dos seminaristas“.

     Referindo-se depois aos problemas pastorais das dioceses, o Santo Padre afirmou que é preciso evitar “limitar-se a questões organizativas, por mais importantes que sejam… com uma espécie de ‘burocratização da pastoral’, concentrando-se nas estruturas, na organização e nos programas”. Bento XVI destacou ainda que “a evangelização requer partir do encontro com o Senhor, num diálogo estabelecido na oração, de concentrar-se no testemunho a ser oferecido, a fim de ajudar os nossos contemporâneos a reconhecer e a redescobrir os sinais da presença de Deus.”

     Acerca do generoso empenho dos fiéis leigos na vida da Igreja, o Pontífice recordou que sua tarefa específica “é a animação cristã das realidades temporais… Portanto, é necessário prestar atenção no respeito da diferença existente entre o sacerdócio comum de todos os fiéis e o sacerdócio ministerial dos que foram ordenados a serviço da comunidade, diferença não somente de grau, mas também de natureza”.

     Por fim, diante das inúmeras ameaças dirigidas à família, “como consequência de uma concepção da natureza humana que se demonstra imperfeita”, o Papa recordou que “defender a vida e a família na sociedade não é absolutamente um ato retrógrado, mas sim profético, porque significa promover valores que permitem o pleno desenvolvimento da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. Temos aqui diante de nós um verdadeiro desafio a enfrentar”. Por fim, Bento XVI recomendou aos Bispos o empenho em defender a unidade da Igreja na porção do Povo de Deus que lhes foi confiada, “mesmo que no seu interior se expressam legitimamente sensibilidades diferentes que merecem ser objeto de uma igual solicitude pastoral” [ndr: seria uma referência velada aos tradicionalistas franceses?], e a necessidade de garantir uma “catequese adequada” às novas gerações, “para que encontrem o próprio lugar na comunidade dos fiéis”. (SL) (Agência Fides 22/09/2012)

A Arte do Canto e a Ciência

Por Maestro Luciano Peixoto


O canto é uma arte que se desenvolveu ao longo dos séculos, e o mais impressionante é que seu estudo é embasado através do empirismo, ou seja, pelo método prático de analisar como se chega num determinado objetivo através de tentativas assertivas. Foi por este tipo de conhecimento não científico, que se descobriu e amadureceu a própria arte do canto, a emissão, colocação, ressonância vocal, a técnica vocal e os vocalizes.

Este tipo de dinâmica e de crescimento sobre a arte do canto, não se deu do nada. Pensemos um pouco nos mestres e professores de canto que fixaram estes estudos através de suas experiências e de um longo caminho de prática, como, por exemplo: Concone, Sieber, Vaccaj, Pnofka, Marchesi, Rossini, Lehman, Panseron, Rubini, Lablache, Lamperti, Lütgen, Dannhauser e Cacilda Barbosa. Cada um desses autores desenvolveu seus próprios métodos de canto, com objetivo único de “descascar” a voz do aluno de canto e permitir sua longevidade vocal. Sendo assim, o aluno podia executar qualquer música de câmara (Chanson, Lieder, Modinhas e Canções Brasileiras) e, sobretudo árias de óperas.

Mesmo que muitos ainda digam que o canto é uma ciência, temos a consciência que não é, mas, nem por isso devemos desmerecê-la, pois, sabemos que a ciência contribuiu muito para o desenvolvimento do estudo do canto, e que a fonoaudiologia, ajuda não apenas no conhecimento teórico e prático da voz e de suas propriedades, mas também sobre ajustes e correções da voz humana. Isto pode torna-se um grande diferencial para um aluno de canto, sobretudo se este tiver alguma “disfunção” em sua voz.

O bom mesmo seria que os profissionais da voz – professor de canto e fonoaudiólogo - trabalhassem juntos, podendo, assim, analisar nos dois parâmetros a voz do aluno. Pois há questões científicas na voz humana que somente à luz da ciência podem ser sanadas, como também existem questões sobre a voz que somente à luz do conhecimento empírico do canto é que se podem alcançar certos objetivos.

Não criemos dissenções nem muito menos empatias, conhecimento científico e conhecimento empírico, se ajudam de forma mútua. Percebamos que o canto é uma ínfima expressão dos nossos sonhos, desejos, alegrias e tristezas, e que a voz, que é portadora do cantar, possa ser apreciada e estudada pelas pessoas capacitadas nas áreas afins, buscando um só objetivo, assim como os grandes mestres do canto tinham: cuidar da saúde vocal do seu aluno, tornando-o preparado para cantar.