O congresso internacional «Sacra Liturgia 2013», que teve lugar de 25 a 28 de Junho, em Roma, deu a oportunidade a dois cardeais e a três bispos de poderem contribuir para o debate sobre a liturgia e sobre a reforma litúrgica, juntamente com sacerdotes, religiosos e leigos. Um deles era Mons. Alexander Sample, antigo bispo de Marquette, no Michigan, e agora bispo de Portland, no Oregon. Além de vir participar na conferência pensada pelo bispo de Toulon, Mons. Rey, a verdade é que Mons. Sample viajou até Roma para receber o pálio das mãos do Papa Francisco, no dia da solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo. A sua ampla experiência de pastor permitiu-lhe fazer uma intervenção esclarecedora e muito apreciada sobre: “O bispo: regente, promotor e guardião da vida litúrgica da diocese”. I – RESUMO DA INTERVENÇÃO DE MONS. SAMPLE NO CONGRESSO “SACRA LITURGIA” O objectivo da conferência de Mons. Sample era o de proporcionar uma reflexão sobre a conduta de um bispo na própria diocese à face dos textos do Concílio Vaticano II que definem o seu papel e, em particular, a consideração das três funções que lhe são próprias: "munus docendi, munus liturgicum, munus regendi" (a função de ensinar, o culto divino e o governo pastoral). Nos documentos conciliares, o bispo é chamado de “sumo sacerdote” e “sumo pastor das ovelhas” que lhe estão confiadas. Mesmo se a sua função relativa à liturgia não é alvo de tratamento explícito, de maneira implícita sublinha-se o quanto a liturgia do bispo é, e deve ser, exemplar, de modo especial, a que ele celebra na sua Catedral. Uma tal liturgia deverá ser exemplar para os sacerdotes e para os fiéis da diocese, e essa prática há-de ser depois imitada nas paróquias, na fidelidade às normas litúrgicas e com a consciência da beleza que deve acompanhar a adoração divina. Mons. Sample citou então o n. 26 de Lumen Gentium a fim de ilustrar que é ao bispo que “foi confiado o encargo de apresentar à Majestade divina o culto e a religião cristã, de a regular segundo os preceitos do Senhor e as leis da Igreja, às quais lhe caberá juntar, no âmbito da sua diocese e segundo o seu juízo particular, determinações ulteriores”. O decreto Christus Dominus, relativo à missão pastoral dos bispos no seio da Igreja recorda que “Cristo deu aos Apóstolos e aos seus sucessores o mandato e o poder de ensinar todas as gentes, de santificar os homens na verdade e de guiar o rebanho”. O cânone 392 do Código de Direito Canónico também afirma de modo igualmente claro que o bispo, por isso que deve “preservar a unidade da Igreja universal”, é chamado a vigiar para que “não se introduzam abusos na disciplina eclesiástica, particularmente no concernente ao ministério da palavra, à celebração dos sacramentos e sacramentais, ao culto de Deus e dos Santos, e ainda à administração dos bens”. Além disso, é também uma sua responsabilidade velar para que os sacerdotes, diáconos e leigos possam penetrar cada vez mais profundamente no significado dos ritos e textos litúrgicos. A dignidade e a beleza dos santuários, assim como a música e a arte sacra, deverão também ajudá-lo na prossecução deste objectivo. Mons. Sample estima que uma das funções mais importantes dos bispos é aquela que vem delineada em Apostolorum Successores, o directório para o ministério pastoral dos bispos (§142): “O Bispo deve considerar como seu ofício próprio antes de mais o de ser o responsável pelo culto divino e, em vista desta função, exercerá as outras tarefas de mestre e de pastor. De facto, a função santificadora, embora estreitamente unida pela sua própria natureza aos ministérios de magistério e de governo, distingue-se enquanto especificamente exercida na pessoa de Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, e constitui o ponto culminante e a fonte da vida cristã.” O bispo age in persona Christi capitis, e assim em particular na liturgia. Depois desta convincente exposição sobre a missão e a responsabilidade episcopais em matéria de liturgia, o arcebispo recorreu à sua experiência de pastor da diocese de Marquette (Michigan, Estados Unidos) para ilustrar como se pode passar à prática. De acordo com o que prevêem textos do Concílio, o bispo deverá santificar a sua diocese (munus liturgicum ou sanctificandi), nomeadamente através da liturgia, e fá-lo-á dando-lhe uma certa orientação. A sua liturgia deverá ensinar com o exemplo. Demasiados abusos litúrgicos são justificados dizendo: “Vimos isso na Catedral! As liturgias terra-a-terra, infelizmente, são muito mais frequentes do que gostaríamos de admitir. Em Portland, hoje, como em Marquette, ontem, o que Mons. Sample deseja é tão simplesmente que os fiéis e os sacerdotes sigam o exemplo que ele dá e possam proclamar, enchendo-o de alegria: “É assim que faz o bispo.” O segundo aspecto do ministério do bispo é o seu dever de ensinar (munus docendi). Aliás, ele próprio vê-se a si mesmo como o guia da renovação litúrgica na sua diocese, já que, segundo nos diz, é preciso explicar de novo aos sacerdotes e aos leigos as normas litúrgicas: “Estou cada vez mais convencido de que, hoje em dia, uma grande parte dos problemas relativos à celebração da liturgia, e sobretudo no que diz respeito à Santa Missa, vem da ausência profunda e generalizada de uma compreensão da natureza e do significado interior da própria liturgia.” Para dar remédio a isso, o bispo deverá utilizar todos os meios que estejam à sua disposição, seja pelo conselho seja através de publicações diocesanas e, nomeadamente, usando o site internet da diocese. É evidente que não se pode esperar uma mudança da noite para o dia. Deve-se contar com anos, senão mesmo decénios, de uma boa catequese. Por fim, o bispo exerce também o munus regendi, a direcção do rebanho. Para lutar contra os abusos, deve ele próprio evitar infringir as leis litúrgicas. Cumpre-lhe a responsabilidade de se certificar, com paciência e compreensão, que as normas litúrgicas estão a ser respeitadas pelos seus sacerdotes. “Estou convencido de que aquilo que poderíamos chamar de ‘boa liturgia’ começa pela fidelidade inabalável às normas litúrgicas estabelecidas pela autoridade competente”, asseverou. Para garantir esta fidelidade, deve-se corrigir os abusos litúrgicos, e se necessário, uma e outra vez. Frequentemente, não se trata de uma desobediência voluntária por parte dos sacerdotes ou dos fiéis, mas de uma má compreensão. Mons. Sample advoga ainda à publicação por parte dos bispos preocupados com a liturgia, de uma carta pastoral sobre o tema, reforçada por um apelo a uma melhor catequese litúrgica e à elaboração de directivas práticas (por exemplo, quanto à música nas igrejas). O último ponto que Mons. Sample quis sublinhar, e que não constava do texto fornecido previamente aos tradutores, foi o facto de ver na forma extraordinária uma contramedida eficaz em face das más práticas litúrgicas. Segundo ele, a “reforma da reforma” desejada por Bento XVI passa por um maior conhecimento e por conseguinte, uma mais ampla difusão, da antiga forma do rito romano. Se a forma ordinária é chamada a reorientar-se com base nos documentos conciliares, ela precisará de uma bússola e de um modelo. Ora, segundo o arcebispo de Portland, este modelo é a liturgia tradicional. Na opinião dele, os bispos que querem contribuir para a renovação da Igreja deverão familiarizar-se com a forma extraordinária do rito romano. Em Marquette, Mons. Sample tinha permitido a forma extraordinária, e ao fazê-lo deu resposta às aspirações das suas ovelhas. Acima de tudo, como pastor, e antes mesmo de fixar os lugares de culto para a forma extraordinária, reivindicou o direito de a celebrar ele mesmo na sua Catedral. Mons. Sample em Roma, no congresso "Sacra Liturgia" II – ENCONTRO EXCLUSIVO COM MONS. SAMPLE Por ocasião da sua vinda a Roma para o congresso, Mons. Sample teve a gentileza de nos conceder alguns minutos para uma breve entrevista. 1) Quando se olha para o catolicismo americano a partir da Europa, fica-se com a sensação de que a questão litúrgica não assume aí um aspecto ideológico. É assim? Mons. Sample: Eu não vivo aqui, na Europa, mas a julgar pelas informações que consegui recolher junto dos participantes do congresso, de facto, fico com a impressão de que há uma maior abertura à forma extraordinária do rito romano nos Estados Unidos. Pode ser que muitos não a queiram ou não tenham gosto por ela, mas não fazem disso um “casus belli” (“caso de guerra”, n.d.r.) e aceitam-na, mesmo que não fiquem contentes. Tenho a impressão de que as pessoas que aqui pude encontrar deparam com mais dificuldades nas suas próprias dioceses para conseguirem a forma extraordinária. 2) Crê que o Motu Proprio Summorum Pontificum foi aplicado na sua anterior diocese (Marquette) da maneira que Bento XVI o desejava? Mons. Sample: Diria que sim. Quando pediram a sua aplicação, o bispo (que era eu) tratou de que as pessoas fossem atendidas. Nessa diocese rural, chegámos a ter três paróquias que introduziram a forma extraordinária na sua liturgia. E isso veio de um autêntica procura por parte da população. No momento da publicação do Motu Proprio, o Santo Padre convidou os bispos a serem mais generosos com os fiéis. Foi o que tentei fazer no meu cargo anterior. Hoje, em Portland, onde cheguei apenas no início do ano, ainda tenho de tentar saber qual é a procura dos fieis. 3) Na opinião de V. Ex.a, como é que se pode alcançar a paz litúrgica? Mons. Sample: Ora aí está a questão! De facto, fica-se muitas vezes com a impressão de que a liturgia é um campo de batalhas, não acha? Se penso no que vivi, indo mesmo até aos meus anos de seminário, a experiência de quase toda a minha vida sacerdotal é a de que aquilo que mais nos devia unir é precisamente o que mais nos divide. É realmente muito triste! Creio que esse facto é um grande peso no coração de Nosso Senhor, para empregar um termo antropológico, isto é, o facto de ver que o dom de Si próprio, que nos deixou na Eucaristia, se tornou em motivo de divisão entre os seus discípulos, mesmo no seio da Igreja Católica. A paz litúrgica está em se aceitar tudo o que a Igreja nos deu, em todas as suas formas. Mesmo em se tratando da forma extraordinária, devemos aceitá-lo. Como nos explica o Santo Padre no Motu Proprio e na Instrução Universae Ecclesiae, a forma ordinária continua a ser ordinária. Quando formos capazes de receber tudo o que a Igreja nos oferece e de o aceitar tal e qual, então sim, poderemos aproximar-nos da paz litúrgica. Já se ficarmos demasiado apegados às nossas preferências e aos nossos gostos, nesse caso estaremos a abandonar a recta via
Fonte: Paix Liturgique
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A Carta de Paix Liturgique - À CONVERSA COM MONS. SAMPLE
Texto inédito do Papa Bento XVI publicado por ocasião do 50° aniversário do início do Concílio Vaticano II
Foi um dia
maravilhoso aquele 11 de Outubro de 1962 quando, com a entrada solene de mais
de dois mil Padres conciliares na Basílica de São Pedro em Roma, se abriu o
Concílio Vaticano II. Em1931, Pio XI colocara no dia 11 de Outubro a festa da
Maternidade Divina de Maria, em recordação do facto que mil e
quinhentos anos antes, em 431, o Concílio de Éfeso tinha solenemente
reconhecido a Maria esse título, para expressar assim a união indissolúvel de
Deus e do homem em Cristo. O Papa João XXIII fixara o início do Concílio para
tal dia com o fim de confiar a grande assembleia eclesial, por ele convocada, à
bondade materna de Maria e ancorar firmemente o trabalho do Concílio no
mistério de Jesus Cristo. Foi impressionante ver entrar os bispos provenientes
de todo o mundo, de todos os povos e raças: uma imagem da Igreja de Jesus
Cristo que abraça todo o mundo, na qual os povos da terra se sentem unidos na
sua paz.
Foi um momento de expectativa extraordinária
pelas grandes coisas que deviam acontecer. Os concílios anteriores tinham sido
quase sempre convocados para uma questão concreta à qual deviam responder;
desta vez, não havia um problema particular a resolver. Mas, por isso mesmo,
pairava no ar um sentido de expectativa geral: o cristianismo, que construíra e
plasmara o mundo ocidental, parecia perder cada vez mais a sua força eficaz.
Mostrava-se cansado e parecia que o futuro fosse determinado por outros poderes
espirituais. Esta percepção do cristianismo ter perdido o presente e da tarefa
que daí derivava estava bem resumida pela palavra «actualização»: o
cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro. Para que
pudesse voltar a ser uma força que modela o porvir, João XXIII convocara o
Concílio sem lhe indicar problemas concretos ou programas. Foi esta a grandeza
e ao mesmo tempo a dificuldade da tarefa que se apresentava à assembleia
eclesial.
Obviamente, cada um dos episcopados
aproximou-se do grande acontecimento com ideias diferentes. Alguns chegaram com
uma atitude mais de expectativa em relação ao programa que devia ser
desenvolvido. Foi o episcopado do centro da Europa – Bélgica, França e Alemanha
– que se mostrou mais decidido nas ideias. Embora a ênfase no pormenor se desse
sem dúvida a aspectos diversos, contudo havia algumas prioridades comuns. Um
tema fundamental era a eclesiologia, que devia ser aprofundada sob os pontos de
vista da história da salvação, trinitário e sacramental; a isto vinha juntar-se
a exigência de completar a doutrina do primado do Concílio Vaticano I através
duma valorização do ministério episcopal. Um tema importante para os
episcopados do centro da Europa era a renovação litúrgica, que Pio XII já tinha
começado a realizar. Outro ponto central posto em realce, especialmente pelo
episcopado alemão, era o ecumenismo: o facto de terem suportado juntos a
perseguição da parte do nazismo aproximara muito os cristãos protestantes e
católicos; agora isto devia ser compreendido e levado por diante a nível de
toda a Igreja. A isto acrescentava-se o ciclo temático
Revelação-Escritura-Tradição-Magistério. Entre os franceses, foi sobressaindo
cada vez mais o tema da relação entre a Igreja e o mundo moderno, isto é, o
trabalho sobre o chamado «Esquema XIII», do qual nasceu depois a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Atingia-se aqui o ponto da verdadeira
expectativa suscitada pelo Concílio.
A Igreja, que ainda na época barroca tinha
em sentido lato plasmado o mundo, a partir do século XIX entrou de modo cada
vez mais evidente numa relação negativa com a era moderna então plenamente
iniciada. As coisas deviam continuar assim? Não podia a Igreja cumprir um passo
positivo nos tempos novos? Por detrás da vaga expressão «mundo de hoje»,
encontra-se a questão da relação com a era moderna; para a esclarecer, teria
sido necessário definir melhor o que era essencial e constitutivo da era
moderna. Isto não foi conseguido no «Esquema XIII». Embora a Constituição
pastoral exprima muitas elementos importantes para a compreensão do «mundo» e
dê contribuições relevantes sobre a questão da ética cristã, no referido ponto
não conseguiu oferecer um esclarecimento substancial.
Inesperadamente, o encontro com os grandes
temas da era moderna não se dá na grande Constituição pastoral, mas em dois
documentos menores, cuja importância só pouco a pouco se foi manifestando com a
recepção do Concílio. Trata-se antes de tudo da Declaração sobre a liberdade religiosa, pedida e preparada com grande
solicitude sobretudo pelo episcopado americano. A doutrina da tolerância, tal
como fora pormenorizadamente elaborada por Pio XII, já não se mostrava
suficiente face à evolução do pensamento filosófico e do modo se concebia como
o Estado moderno. Tratava-se da liberdade de escolher e praticar a religião e
também da liberdade de mudar de religião, enquanto direitos fundamentais na
liberdade do homem. Pelas suas razões mais íntimas, tal concepção não podia ser
alheia à fé cristã, que entrara no mundo com a pretensão de que o Estado não
poderia decidir acerca da verdade nem exigir qualquer tipo de culto. A fé
cristã reivindicava a liberdade para a convicção religiosa e a sua prática no
culto, sem com isto violar o direito do Estado no seu próprio ordenamento: os
cristãos rezavam pelo imperador, mas não o adoravam. Sob este ponto de vista,
pode-se afirmar que o cristianismo, com o seu nascimento, trouxe ao mundo o
princípio da liberdade de religião.
Todavia a interpretação deste direito à
liberdade no contexto do pensamento moderno ainda era difícil, porque podia
parecer que a versão moderna da liberdade de religião pressupusesse a
inacessibilidade da verdade ao homem e, consequentemente, deslocasse a religião
do seu fundamento para a esfera do subjectivo. Certamente foi providencial que,
treze anos depois da conclusão do Concílio, tivesse chegado o Papa João Paulo
II de um país onde a liberdade de religião era contestada pelo marxismo, ou
seja, a partir duma forma particular de filosofia estatal moderna. O Papa vinha
quase duma situação que se parecia com a da Igreja antiga, de modo que se
tornou de novo visível o íntimo ordenamento da fé ao tema da liberdade,
sobretudo a liberdade de religião e de culto.
O segundo documento, que se havia de revelar
depois importante para o encontro da Igreja com a era moderna, nasceu quase por
acaso e cresceu com sucessivos estratos. Refiro-me à declaração Nostra aetate, sobre as relações da Igreja com as
religiões não-cristãs. Inicialmente
havia a intenção de preparar uma declaração sobre as relações entre a Igreja e
o judaísmo – um texto que se tornou intrinsecamente necessário depois dos
horrores do Holocausto (shoah). Os Padres conciliares dos países árabes não se
opuseram a tal texto, mas explicaram que se se queria falar do judaísmo, então
era preciso dedicar também algumas palavras ao islamismo. Quanta razão tivessem
a este respeito, só pouco a pouco o fomos compreendendo no ocidente. Por fim
cresceu a intuição de que era justo falar também doutras duas grandes religiões
– o hinduísmo e o budismo – bem como do tema da religião em geral. A isto se
juntou depois espontaneamente uma breve instrução relativa ao diálogo e à
colaboração com as religiões, cujos valores espirituais, morais e
socioculturais deviam ser reconhecidos, conservados e promovidos (cf. n. 2).
Assim, num documento específico e extraordinariamente denso, inaugurou-se um
tema cuja importância na época ainda não era previsível. Vão-se tornando cada
vez mais evidentes tanto a tarefa que o mesmo implica como a fadiga ainda
necessária para tudo distinguir, esclarecer e compreender. No processo de
recepção activa, foi pouco a pouco surgindo também uma debilidade deste texto
em si extraordinário: só fala da religião na sua feição positiva e ignora as
formas doentias e falsificadas de religião, que têm, do ponto de vista
histórico e teológico um vasto alcance; por isso, desde o início, a fé cristã
foi muito crítica em relação à religião, tanto no próprio seio como no mundo
exterior.
Se, ao início do Concílio, tinham prevalecido
os episcopados do centro da Europa com os seus teólogos, nas sucessivas fases
conciliares o leque do trabalho e da responsabilidade comuns foi-se alargando
cada vez mais. Os bispos reconheciam-se aprendizes na escola do Espírito Santo
e na escola da colaboração recíproca, mas foi precisamente assim que se
reconheceram servos da Palavra de Deus que vivem e trabalham na fé. Os Padres
conciliares não podiam nem queriam criar uma Igreja nova, diversa. Não tinham o
mandato nem o encargo para o fazer: eram Padres do Concílio com uma voz e um
direito de decisão só enquanto bispos, quer dizer em virtude do sacramento e na
Igreja sacramental. Então não podiam nem queriam criar uma fé diversa ou uma
Igreja nova, mas compreendê-las a ambas de modo mais profundo e,
consequentemente, «renová-las» de verdade. Por isso, uma hermenêutica da ruptura
é absurda, contrária ao espírito e à vontade dos Padres conciliares.
No cardeal Frings, tive um «pai» que viveu de
modo exemplar este espírito do Concílio. Era um homem de significativa abertura
e grandeza, mas sabia também que só a fé guia para se fazer ao largo, para
aquele horizonte amplo que resta impedido ao espírito positivista. É esta fé
que queria servir com o mandato recebido através do sacramento da ordenação
episcopal. Não posso deixar de lhe estar sempre grato por me ter trazido – a
mim, o professor mais jovem da Faculdade teológica católica da universidade de
Bonn – como seu consultor na grande assembleia da Igreja, permitindo que eu
estivesse presente nesta escola e percorresse do interior o caminho do
Concílio. Este livro reúne os diversos escritos, com os quais pedi a palavra
naquela escola; trata-se de pedidos de palavra totalmente fragmentários, dos
quais transparece o próprio processo de aprendizagem que o Concílio e a sua
recepção significaram e ainda significam para mim. Em todo o caso espero que
estes vários contributos, com todos os seus limites, possam no seu conjunto
ajudar a compreender melhor o Concílio e a traduzi-lo numa justa vida eclesial.
Agradeço sentidamente ao arcebispo Gerhard Ludwig Müller e aos colaboradores do Institut Papst Benedikt XVI pelo extraordinário compromisso que
assumiram para realizar este livro.
Castel
Gandolfo, na memória do bispo Santo Eusébio de Vercelas, 2 de Agosto de 2012.
BENTO XVI
O Papa aos bispos da França: leigos devem animar realidades temporais; diferença entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial.
Do Fratres
No momento em que o Cardeal Schönborn, arcebispo de Viena, anuncia uma reforma diocesana pela qual leigos comandarão paróquias, o Santo Padre declara aos bispos franceses: leigos devem animar realidades temporais; preste-se atenção à diferença essencial entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ordenado.
Castel Gandolfo (Agência Fides | 22-09-2012) – “A França possui uma longa tradição espiritual e missionária… Os desafios de uma sociedade largamente secularizada convidam agora a buscar com coragem e otimismo uma resposta, propondo com audácia e inventiva a novidade permanente do Evangelho”. São as palavras com as quais o Santo Padre Bento XVI se dirigiu ontem, 21 de setembro, ao primeiro grupo de Bispos da França que veio a Roma para a visita Ad Limina Apostolorum. No seu discurso, o Papa destacou os traços essenciais da figura do Bispo, cujo ministério se inspira na imagem do Bom Pastor, “que conhece as suas ovelhas, vai em busca daquela que se perdeu, e as ama até dar a própria vida por elas”. “O Bispo diocesano – destacou o Pontífice – é chamado a manifestar uma solicitude especial pelos seus sacerdotes e, em especial, por aqueles que receberam a ordenação recentemente e pelos que têm necessidade ou são idosos… Nos nossos dias, sem dúvida, os operários do Evangelho são poucos. Portanto, é urgente pedir ao Pai que envie operários para sua messe. É preciso rezar e fazer rezar nesse sentido e os encorajo a prosseguir com mais atenção a formação dos seminaristas“.
Referindo-se depois aos problemas pastorais das dioceses, o Santo Padre afirmou que é preciso evitar “limitar-se a questões organizativas, por mais importantes que sejam… com uma espécie de ‘burocratização da pastoral’, concentrando-se nas estruturas, na organização e nos programas”. Bento XVI destacou ainda que “a evangelização requer partir do encontro com o Senhor, num diálogo estabelecido na oração, de concentrar-se no testemunho a ser oferecido, a fim de ajudar os nossos contemporâneos a reconhecer e a redescobrir os sinais da presença de Deus.”
Acerca do generoso empenho dos fiéis leigos na vida da Igreja, o Pontífice recordou que sua tarefa específica “é a animação cristã das realidades temporais… Portanto, é necessário prestar atenção no respeito da diferença existente entre o sacerdócio comum de todos os fiéis e o sacerdócio ministerial dos que foram ordenados a serviço da comunidade, diferença não somente de grau, mas também de natureza”.
Por fim, diante das inúmeras ameaças dirigidas à família, “como consequência de uma concepção da natureza humana que se demonstra imperfeita”, o Papa recordou que “defender a vida e a família na sociedade não é absolutamente um ato retrógrado, mas sim profético, porque significa promover valores que permitem o pleno desenvolvimento da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. Temos aqui diante de nós um verdadeiro desafio a enfrentar”. Por fim, Bento XVI recomendou aos Bispos o empenho em defender a unidade da Igreja na porção do Povo de Deus que lhes foi confiada, “mesmo que no seu interior se expressam legitimamente sensibilidades diferentes que merecem ser objeto de uma igual solicitude pastoral” [ndr: seria uma referência velada aos tradicionalistas franceses?], e a necessidade de garantir uma “catequese adequada” às novas gerações, “para que encontrem o próprio lugar na comunidade dos fiéis”. (SL) (Agência Fides 22/09/2012)
O Motu proprio Summorum pontificum e a Instrução U...
“Lex orandi, lex credendi”: O Motu proprio Summorum pontificum e a Instrução U...: O Motu proprio Summorum pontificum e a Instrução Universae Ecclesiae « Presbíteros Em 14 de setembro de 2007 entrou em vigor o Motu propr...
A Arte do Canto e a Ciência
Por Maestro Luciano Peixoto
O canto é
uma arte que se desenvolveu ao longo dos séculos, e o mais impressionante é que
seu estudo é embasado através do empirismo, ou seja, pelo método prático de
analisar como se chega num determinado objetivo através de tentativas
assertivas. Foi por este tipo de conhecimento não científico, que se descobriu
e amadureceu a própria arte do canto, a emissão, colocação, ressonância vocal,
a técnica vocal e os vocalizes.
Este tipo
de dinâmica e de crescimento sobre a arte do canto, não se deu do nada.
Pensemos um pouco nos mestres e professores de canto que fixaram estes estudos
através de suas experiências e de um longo caminho de prática, como, por
exemplo: Concone, Sieber, Vaccaj, Pnofka, Marchesi, Rossini, Lehman, Panseron,
Rubini, Lablache, Lamperti, Lütgen, Dannhauser e Cacilda Barbosa. Cada um
desses autores desenvolveu seus próprios métodos de canto, com objetivo único
de “descascar” a voz do aluno de canto e permitir sua longevidade vocal. Sendo
assim, o aluno podia executar qualquer música de câmara (Chanson, Lieder,
Modinhas e Canções Brasileiras) e, sobretudo árias de óperas.
Mesmo que
muitos ainda digam que o canto é uma ciência, temos a consciência que não é,
mas, nem por isso devemos desmerecê-la, pois, sabemos que a ciência contribuiu
muito para o desenvolvimento do estudo do canto, e que a fonoaudiologia, ajuda
não apenas no conhecimento teórico e prático da voz e de suas propriedades, mas
também sobre ajustes e correções da voz humana. Isto pode torna-se um grande
diferencial para um aluno de canto, sobretudo se este tiver alguma “disfunção”
em sua voz.
O bom
mesmo seria que os profissionais da voz – professor de canto e fonoaudiólogo -
trabalhassem juntos, podendo, assim, analisar nos dois parâmetros a voz do aluno.
Pois há questões científicas na voz humana que somente à luz da ciência podem
ser sanadas, como também existem questões sobre a voz que somente à luz do
conhecimento empírico do canto é que se podem alcançar certos objetivos.
Não
criemos dissenções nem muito menos empatias, conhecimento científico e
conhecimento empírico, se ajudam de forma mútua. Percebamos que o canto é uma
ínfima expressão dos nossos sonhos, desejos, alegrias e tristezas, e que a voz,
que é portadora do cantar, possa ser apreciada e estudada pelas pessoas
capacitadas nas áreas afins, buscando um só objetivo, assim como os grandes
mestres do canto tinham: cuidar da saúde vocal do seu aluno, tornando-o
preparado para cantar.
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